quinta-feira, 22 de abril de 2010

CHARADA DE ÔNIBUS

         O ônibus quase vazio permitia aquele momento de tagarelice entre eles. Sentei-me estrategicamente próxima aos dois. Os gestos exagerados do cobrador e a expressividade do rosto do motorista, mostradas por meio do espelho retrovisor, davam-me a sensação de assistir a um filme, ou melhor, a uma peça teatral. Cenas da vida real. A conversa girava em torno do futebol, da doença de um tal Batista, da mulher de João Pedro, do calor, da Prefeitura... Confesso que minha atenção oscilou várias vezes entre o trânsito lá fora e aquela conversa ora monótona, ora interessante. Mas foi uma frase do motorista que me trouxe definitivamente para aqueles dois personagens:
- Você gosta de charadas?
      O cobrador olhou um pouco assustado com o ar infantil da pergunta, mas logo entrou no jogo:
- Ah, sempre fui muito bom nisso!! Manda aí!!
       O Motorista nem parou pra pensar e já foi soltando:
- O que é o que é, que TODOS têm dois, VOCÊ tem só um e EU não tenho nenhum?
    Pela primeira vez, desde que subi naquele ônibus, senti um silêncio no ambiente. A resposta eu já sabia, mas como a conversa não era comigo, fiquei aguardando ansiosamente a reação do cobrador. Ele colocou a mão no queixo, abaixou a cabeça e, enquanto isso, o motorista dava seu meio sorriso pelo espelho retrovisor. O silêncio se estendeu por mais ou menos umas duas paradas de ônibus, até que o cobrador levantou a cabeça e meio titubeante perguntou:
- O amor?!
     O motorista na sua exagerada expressividade, levantou as sobrancelhas bem levantadas e deu um pulo para trás:
- Como assim?
      O cobrador, agora vermelho, juntou toda a sua lógica e tentou explicar da forma mais segura que pôde:
- Bom, TODOS meus amigos tem dois amores, VOCÊ tem só uma e EU não tenho nenhum amor.
     O motorista fez cara de que não gostou, balançou a cabeça negativamente:
- Você é louco!!! Não, não é isso!!! Pense mais um pouco! Olha presta atenção, de novo: TO-DOS tem dois, VO-CÊ tem um só, e EU... Entendeu?... EUUU não tem nenhum.
     Mais uma vez o silêncio reinava no ambiente. O pobre do cobrador ficou pensativo por mais umas três paradas e o motorista mostrava um quê de decepção pelo companheiro de prosa. Enfim, o cobrador se entrega:
- Ah, essa é difícil, fala aí o que é!
      O motorista, aliviado, desabafa:
- É o Ó!
O cobrador, num gesto de indignação solta uma ecoante interrogação pelo ar:
- O que?
- Oras, a letra Ó! TO-DOS tem dois, VO-CÊ tem um e EU não tem nenhum!
     O cobrador, encolheu-se em seu banco, mostrava a agonia do pensamento querendo chegar a um entendimento, mas não conseguia e pediu ajuda novamente:
- Mas... Fala, então, o significado disso aí! O que é que tem o Ó?
     O motorista, inconformado com a ignorância do amigo, explicou de forma irritada mais uma vez:
- Nossa!! Não acredito que você não entendeu! Olha só, TODOS tem dois “o”, VOCÊ tem um só e EUUUU não tem nenhum! Entendeu?
       O cobrador, sem afirmar nada, balbuciou:
- Mas... Que estranho...
     Novamente, silêncio no ônibus. Ele seguia pensando na resposta e sentir sua agonizante ignorância apertava-me o peito. Sua expressão de angústia profunda contagiou o ambiente. O coitado colocava as duas mãos na cabeça, olhava pra cima, olhava pros lados, abaixava-se, e seu olhar era de interrogação constante. Não se conformava em não compreender a maldita charada. Faltavam três paradas para eu desembarcar, e a agonia de descer sem saber se ele ia entender causava-me rebuliços no estômago. Fitei-o por algum tempo para ver se olhava pra mim, a fim de eu puxar uma conversa e retomar o tema da charada e, enfim, explicar-lhe melhor o sentido da resposta. Mas não olhava, parecia compenetrado em si mesmo, e em seu rosto percebia-se cada vez mais a amargura em não conseguir atingir o raciocínio correto. Não agüentei. Rascunhei didaticamente em uma folha de papel a explicação da resposta, sublinhando e enumerando os “os” de cada palavra. Estava tudo planejado: assim que chegasse a minha vez de descer, entregaria o papel dobrado para o cobrador. Bom, o momento chegou, levantei-me solenemente e, como se tivesse uma grande missão a cumprir, olhei firmemente para o mísero cobrador, que assim que me viu, enrubesceu de repente e baixou os olhos de uma tal forma que me fez desistir daquilo tudo. Parada final, charada sem fim... Coloquei o papel no bolso e desci daquele ônibus com mil interrogações dentro de mim...

Um comentário:

  1. Fascinante texto, minha querida. Literariamente impecável e existencialmente tocante. Beijo

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